domingo, 14 de setembro de 2008

Violência em Brasília

O PERIGO RONDA AS ESCOLAS PARTICULARES DO DF

Três reais e oitenta centavos é o preço que alunos de escolas da L2 Sul chegam a pagar pela própria segurança. O medo de serem assaltados no caminho até a quadra comercial do outro lado da rua é tanto que os estudantes preferem ligar e pedir para o motoboy deixar o lanche na porta do colégio. A gerente do restaurante fast food confirma: os pedidos são feitos toda semana por esses adolescentes. “É melhor do que apanhar e ver os bandidos levarem nossas coisas”, justificou um garoto de 13 anos, que estuda a 125m da lanchonete.

Pagar mais caro pelo lanche foi uma das formas encontradas pelos alunos de se adaptarem à rotina de insegurança. Eles sabem que quando põem o pé fora do colégio, viram presas fáceis para criminosos que agem, principalmente, nos arredores de escolas particulares do Plano Piloto. O Correio visitou 10 centros de ensino na última semana. Todos os alunos abordados pela reportagem já foram assaltados ou conhecem colegas que viveram essa situação. O problema é recorrente. E, por isso, caiu na vala da normalidade. Alunos, diretores de escola, polícia: todo mundo tem conhecimento dos assaltos. Contê-los passou a ser um grande desafio.

Números oficiais não existem. A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal alega que um levantamento específico como esse levaria tempo demais para ser feito. De acordo com dados repassados pelas escolas visitadas pelo Correio, pelo menos 30 alunos foram assaltados este ano. A estimativa, no entanto, não corresponde à realidade. A maioria das vítimas não registra ocorrência, o que dificulta a elaboração das estatísticas. Mesmo assim, nas delegacias das Asas Sul e Norte, o assunto não é novidade. Os delegados dizem que não percebem aumento no número desse tipo de ocorrência, mas reconhecem que elas são freqüentes.

Logística dos assaltos
Os assaltos ocorrem quase sempre no meio do dia ou no fim de tarde, quando os alunos deixam as escolas em direção às comerciais ou às paradas de ônibus. A abordagem é feita, geralmente, em becos, áreas verdes e locais escuros. Os criminosos costumam agir em grupo. Sozinhos, apenas quando estão de bicicleta. Imobilizam as vítimas com chaves de braço ou as derrubam no chão. Exibem pequenas facas e canivetes para intimidar. Às vezes, portam armas de brinquedo ou escondem as mãos por baixo da roupa para aparentar estarem armados.

Os alunos que não foram assaltados temem ser as próximas vítimas. “Morro de medo. O pessoal sempre comenta desses assaltos. Só desço sozinha para a parada quando não tem ninguém para descer comigo”, disse uma aluna de 14 anos do Sigma da 912 Sul. “Eu evito ir lanchar na comercial. Mas, de vez em quando, vou. Minha mãe disse que se alguém me parar é para eu entregar tudo e sair correndo”, contou uma estudante de 12 anos do Colégio Marista da 609 Sul.

A parafernália eletrônica que os adolescentes carregam consigo chama a atenção de oportunistas (veja arte). Celulares, relógios e aparelhos de MP3 Player estão entre os objetos mais roubados. As características do crime indicam que quem o comete é gente amadora, o que torna ainda mais perigosa qualquer tentativa de reação. Em muitos casos, os autores são menores de idade. “Trata-se geralmente de moradores de rua, carroceiros, pedintes. Não são bandidos qualificados”, explicou o titular da 2ª DP (Asa Norte), Antônio Romero.

A freqüência dos assaltos e a dificuldade em contê-los preocupa os pais dos estudantes. A professora Valéria Guimarães, 34 anos, não larga do pé do filho de 9 anos. Faz questão de deixá-lo e buscá-lo na porta da escola todo santo dia: “Sou muito preocupada. Ele é pequeno e indefeso”. O advogado Almir Angelo da Silva, 63, pai de um rapaz de 16 também não dá bobeira. Antes mesmo de a aula acabar, ele já está de prontidão na porta da escola aguardando o filho. “Acho que até quando ele estiver na faculdade, vou querer agir dessa forma”, comentou.

Texto de Diego Amorim, Brasília, Correio Brasiliense, 14 de Setebro de 2008

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